Recebi um imeil, onde se lia: “O principal ponto em que se baseia meu ceticismo com relaçao à astrologia são as generalizações e/ou a existência de possibilidades múltiplas que acabam por atingir quase que a totalidade dos acontecimentos possíveis.”
Respondi o seguinte:
"Veja se você acha essas minhas previsões, que se mostraram corretas, são excessivamente gerais:
a) Em 1981, eu estava em um ferry boat, atravessando o Canal da Mancha, na direção da França, tendo, via leitura de Ecce Homo, meu primeiro contato com a obra de Nietzsche. A partir dessa leitura, conclui: esse cara era do signo de Libra, com ascendente em Escorpião e Plutão em Áries em oposição com o Sol. Verifiquei, posteriormente: tudo certo. Essa foi a primeira de minhas previsões astrológicas que a mim mesmo impressionaram por seu alto grau de precisão.
b) A seguinte foi ocorreu com um meu professor de Filosofia, da PUC-RJ. Encontrei-o, por acaso, na rua e convidei-o para subir até meu apartamento, para conversarmos um pouco. Após uns vinte minutos de papo, perguntei: “Você é do signo de Leão?” Era. Depois: “Nasceu entre 12 e 14hs”. Tinha nascido às 12:15hs. Acrescentei: “Vou dizer o dia em que você nasceu: 29 de julho”. Quase caiu duro: tinha nascido no dia 28 desse mês.
c) Uma paciente sentou-se, pela primeira vez, na poltrona de meu consultório e, depois de algum tempo, pensei: “Tem o planeta Marte em 25º de Áries”. Não deu outra.
d) Como estou escrevendo conforme vêm os dados à minha cabeça, vou vir para os tempos atuais. Minha mulher - sobre quem também fiz uma previsão muito precisa, da qual logo falarei – estava fazendo o mapa astrológico da filha de uma paciente minha. Dei uma olhada, e disse: “A mãe dela deve ter o Sol no 24º do signo de Leão”. Ela espantou-se com o fato de que, olhando o mapa da filha, eu pudesse prever onde estava o Sol da mãe. Fomos verificar. Onde estava? No 24º de Leão!
e) Quando conheci minha mulher, há cerca de 4 anos, fiquei impressionado com sua facilidade para compreender Astrologia e tirar conclusões perfeitamente cabíveis que eu mesmo, muito mais versado do que ela no assunto, nunca havia tirado. Pensei: “Ela tem o planeta Urano em conjunção (no mesmo grau, ou próximo disso) com o Sol”. Não deu outra.
f) Uma colega, professora de Psicologia da Sorbonne, visitando o Rio, encontrou-me em um restaurante, onde iniciou-se uma polêmica sobre o cabimento ou não cabimento da Astrologia. Disse-lhe que esse não era um assunto para se resolver por meio de debates, mas, sim, por verificação empírica e que, portanto, mais valia que viéssemos até minha clínica e fizéssemos seu mapa, para testar se era possível, ou não, fazer previsões corretas a partir dele. Viemos. Feito isso, perguntei-lhe se havia ocorrido uma séria separação de seu pai, em 1970, por morte ou por outra razão qualquer. Disse-me que, de fato, seu pai havia morrido em 1969. Comuniquei-lhe meu espanto, pois, em 1969, não estava sinalizada nenhuma separação dela relativamente ao pai. Ligou-me depois de Paris. Olhara o atestado de óbito: o pai havia morrido, na verdade, quando eu dissera, em 1970;
g) Dando supervisão, terminada a apresentação de um caso por um aluno, comentei: “Parabéns, o caso está sendo extremamente bem conduzido. Mas uma coisa: conheço Psicanálise. Mesmo muito bem conduzida, ela não é capaz, por si só, de produzir uma mudança tão profunda em um espaço tão curto de tempo. Esse paciente deve estar com seu Sol recebendo um trígono (120º) de Plutão. Verificamos. Não deu outra.
h) Também em supervisão, após a apresentação de um caso, parabenizei a terapeuta, mas acrescentei: “Tudo bem. Mas, independentemente do bom resultado do tratamento, você, com outros pacientes, não fala que nem uma matraca, como você fala com essa paciente. Ela deve ter o planeta Júpiter em trígono com o grau em que se encontra seu planeta Mercúrio”. Verificamos. Não deu outra.
i) Algo de mesma ordem ocorreu, quando, eu e minha mulher, Laura, conhecemos Renata. Ela provocou tal verborréia em minha mulher, que também imaginei que teria o Júpiter em trígono com o Mércúrio da Laura. Bingo! Não deu outra.
j) Certa feita, perdi uma paciente por causa da Astrologia. Ela me disse que me havia procurado como terapeuta porque havia assistido a uma palestra ministrada por mim e me havia achado brilhante, mas, ao ver, a partir de uma colocação minha, que eu levava Astrologia a sério, tinha chegado à conclusão de que eu era um perfeito imbecil e, portanto, ia suspender o tratamento. A colocação a que se referia era meu comentário de que eu estava achando curioso que ela, que, com 21 anos, recém-casada, sempre havia dito que só iria querer ter filhos após ter completado uma pós-graduação e estar profissionalmente estabelecida, tinha, ‘out of the blue’, resolvido engravidar e, além de curioso, algo apreensivo, porque, examinando seu mapa, eu havia reconhecido uma quantidade de influências negativas sobre a casa relativa a filhos que eu nunca havia visto anteriormente. Bem, como eu disse, saiu do tratamento. Procurou-me, novamente, cerca de um ano depois. Para tratamento psicanalítico? Não, para consulta astrológica: para perguntar-me se, agora, poderia ter filhos. O primeiro havia morrido dentro do útero, despercebidamente do obstetra, com uma série de conseqüências nefastas para a saúde de minha ex-paciente...
l) Disse a uma amiga que estava se dispondo a mudar de apartamento por causa de uma infiltração, originada do andar de cima, que não me parecia boa idéia fazê-lo naquele momento, pois, em um novo apartamento, iria provavelmente defrontar-se com o mesmo problema. Disse que seria melhor esperar, se não me engano, o mês de outubro, quando Netuno (= água) em trânsito sairia da oposição (= aspecto desfavorável) com sua Lua (= casa). O problema da infiltração, que provinha do apartamento acima do dela, é que o proprietário desse último estava viajando e o síndico do prédio, compreensivelmente, não queria assumir a responsabilidade de invadir o apartamento para providenciar o concerto cabível. Diferentemente do que ocorrera com a paciente de que acabei de falar, ela me escutou e continuou no apartamento. Ligou-me em outubro, dizendo que, para sua surpresa, o vazamento havia cessado. Comunicara-se com o síndico e ele lhe informou que o proprietário desaparecido aparecera e, naquele mês, fizera os concertos necessários...
m) Encontrei-me com meu advogado para irmos juntos para uma audiência no fórum do Rio de Janeiro. Disse-lhe: hoje, não vai ocorrer essa audiência. Riu. Riu aquele risinho superior, de quem está achando o outro um pobre imbecil. Chegados ao fórum, nem juíza, nem advogado da outra parte. Nossa audiência era a primeira da tarde, às 13hs. 14, 15hs, 16hs. Nada. Pouco depois das 16hs aparece um advogado, dizendo que o advogado que não comparecera tinha tido uma emergência que lhe impossibilitara de vir e que ele, o recém-chegado, trazia uma procuração para substituí-lo. E a juíza? Nada. Apareceu às 17hs: havia ficado presa em um entupimento de tráfego fenomenal, na ponte Rio-Niterói. Entramos, o advogado-substituto expôs a situação e se declarou impossibilitado de defender a outra parte, sem vista dos autos. A juíza, aliviada, concedeu-lhe as vistas e transferiu a audiência. Dessa vez, o risinho de superioridade foi meu.
n) Uma amiga psicóloga, que estava trabalhando também como despachante para mim, procurou-me, dizendo: “César, vai você lá na Administração Regional para pegar aqueles documentos, porque eles não estão querendo me entregar de jeito nenhum. Você é o dono da empresa, para você, talvez eles entreguem”. Respondi: “De jeito nenhum. Esse documento não chega aqui antes de Janeiro (estávamos em outubro)”. Ela resignou-se. Liguei-lhe de volta de janeiro: “Sandra, os documentos estão aqui”. Ao que replicou: “Ah, que legal! Você foi lá buscar?”. E, surpresa, ouviu de volta: “Não. ELES VIERAM TRAZER AQUI!”
Tenho dezenas de exemplos desse tipo, que, como você vê, não têm nada de “geral”. Foram eles que me levaram a levar a sério as previsões astrológicas.