20 de jan. de 2008

ASTROLOGIA, LIVRE-ARBÍTRIO E PSICANÁLISE

Parte I

Psicanalistas e astrólogos têm em comum pelo menos uma experiência: a constatação do sem-número de vezes em que a divulgação do conhecimento que suas ciências acumularam desperta nos que a essa divulgação são expostos reações irracionais.
Quero sustentar aqui que a semelhança dessas reações aponta para o fato de que ambos, psicanalistas e astrólogos, estão lidando com o que considero a matéria mais explosiva com que se pode defrontar o psiquismo humano, seja, o problema da liberdade. Para o ser humano, o problema da liberdade não é UM problema, é O problema, porque nele está embutida, simplesmente, a ocorrência nuclear e hamletiana de SER ou NÃO SER. Defrontar o ser humano com o fato de que, aqui, ou ali, ou acolá, ele não é livre não repercute nele como uma mera descrição de estado; repercute, sim, como intrusiva acusação. Paradoxalmente, um ser humano não nasce um ser humano. Nasce meramente com a possibilidade de tornar-se ou não tornar-se tal. SER ou NÃO SER, é e será sempre, para ele, a essencial questão.
Se nasce um tigre, parecerá deslocado indagar: atingirá ele a sua “tigridade”? Tigre é tigre, nasce tigre e, enquanto biologicamente vivo, não pode ser acusado de NÃO SER. O ser humano pode. Pode ser acusado de, biologicamente vivo, estar psicologicamente morto. Pode ser acusado de, embora SENDO, NÃO SER. A morte, afinal, vinga, soberana, como o único e derradeiro critério para diferenciarmos a sanidade da doença: a doença física é qualquer estado que aponte para a morte biológica; a doença mental é qualquer estado que aponte para a morte psicológica. E a morte psicológica, para um ser humano, equivale à eliminação do seu arbítrio.
Assim, dizer a um ser humano “aqui, ali, ou acolá, você não está sendo livre!” equivale, a despeito de todo cuidado que possamos ter tido de limitar essa restrição de liberdade a este ou àquele setor, a dizer: “ali, você NÃO É!”; a dizer: “você, que nasceu com a possibilidade de tornar-se um ser humano, ali, você não se tornou um!”; a dizer: “ali, biologicamente vivo, está psicologicamente morto!”.
Defrontar um ser potencialmente humano com sua falta de liberdade é defrontá-lo com o fracasso de sua missão de tornar-se o que poderia ser, é defrontá-lo com sua NÃO EXISTÊNCIA, com o NÃO SER, com a sua morte.
Psicanalistas e astrólogos fazem isso. Psicanalistas e astrólogos, não quantas vezes armados de uma profissionalmente característica maldade esfregam no nariz de seus consulentes a temida frase: “você NÃO É!”; a temida frase: “você ESTÁ MORTO!”. Vivo, supremo, reina (segundo a especialidade), ou, nas profundezas dos céus, o ASTRO; ou, nas do mente, o INCONSCIENTE. Mandando em você, eterno títere dos planetas e dos complexos, incapaz de “cavalgar a sua estrela” e de “controlar sua neurose”... — “Não!”, brada você, antes que possamos terminar. — “Nada de tudo isso é verdade!”
Somos nós, psicanalistas e astrólogos, que estamos mortos. São as nossas ciências que tão têm fundamento, que são conjuntos de desvarios maldosamente organizados para destruir você. O inconsciente não tem força e é inconseqüente, pelo menos no que diz respeito a você, o rolar dos astros pelo céu. Você nos nega. Não estaria certo? Ou pelo menos, vingativamente certo? Nós declaramos a sua morte, você declara a nossa; nós declaramos o seu fracasso na missão de tornar-se humano, você declara, em contrapartida, o fracasso de nossas ciências em suas pretensões de verdade.
Mas há outra possibilidade. Essa, me parece ainda mais perniciosa: você cede. Você, rotulado, reduzido, descrito, previsto, explicado, você cede. Nós ganhamos. Você perdeu. Sabe o que acontece, então? Você se vinga também, mas de outra forma. Você não nos mata. Você não diz que nossos conhecimentos são um amontoado de infundados desvarios que só nossa infantil credulidade pode sustentar. Não. Pelo contrário. Você diz que nós estamos tão certos, tão certos, que os conhecimentos em que apoiamos nossos diagnósticos são tão sólidos, tão sólidos... que você não pode fazer nada! Você, guiado por nossas mãos, transformado em um porco existencial, se espoja na lama do destino. Defrontado com seus limites, você se transforma neles. Você não mais teve sua carta natal levantada: você É sua carta natal! Você não mais tem uma fobia: você É um fóbico! De negados, passamos a ser diabolicamente úteis. Você, que infernizava a vida de sua mulher e sentia-se um pouco mal com isso, encontrou, por meio de nós, a paz de uma “cobertura ideológica”: seu astrólogo lhe revelou que seu Marte tem uma quadratura exata (“e-x-a-t-a!”, enfatiza você em conversas) com a Lua dela e, além disso, seu psicanalista lhe fez lembrar que você não foi amamentado e que, inconscientemente, confunde sua mulher com sua mãe. Nós, o psicanalista e o astrólogo, fornecemos as desculpas para que você infernize sua mulher em paz através dos tempos... Ah, ia terminando, mas lembrei-me em tempo: se pusermos um tempero de reincarnacionismo em tudo isso, você pode optar pela vantagem adicional de dizer que, ao ser infernizada, sua mulher está recebendo a devida paga pelos incontáveis males que, em outra vida, lhe causou...
Nós quisemos, não foi? Conscientes ou não disso, nós, psicanalistas e astrólogos fizemos o que de mais detestável se pode fazer a um ser humano: defrontá-lo com os seus limites. E recebemos de volta — se não sempre, pelo menos costumeiramente — alguma variação de um dos dois grandes tipos seguintes de resposta:
Primeiro. Defrontado com um de seus limites, o sujeito NEGA QUE TAL LIMITE EXISTA. É, na minha experiência, a reação mais comum. A ela me referia, quando, no início deste ensaio, mencionei as reações irracionais provocadas pela divulgação de conhecimentos psicanalíticos e astrológicos. Como o limite foi diagnosticado pelo psicanalista e/ou pelo astrólogo, a partir daqueles conhecimentos, decorre facilmente que a negação do limite carreie consigo a negação do psicanalista, do astrólogo, da Psicanálise, da Astrologia e, aqui entre nós, do que mais diabos necessários for. Considero relevante, para a compreensão do processo, esse reconhecimento de que a negação da validade a essas duas ciências e a seus profissionais é uma negação SECUNDÁRIA, decorrente de uma outra — essa, sim, PRIMÁRIA — que é a negação, por parte do sujeito, do limite com que foi defrontado. O fundamento de suas objeções é a tentativa de evitar a ferida narcísica provocada pela percepção desse limite. Esse fundamento, contudo, não pode ser exposto: fazê-lo implicaria ter contato com a ferida narcísica que se quer evitar, tornando sem utilidade tais objeções. Ferido em seu narcisismo, impossibilitado de trazer á tona, em sua argumentação, o verdadeiro motivo que tem para estar argumentando, o sujeito se sente ameaçado, inseguro e a argumentação em causa adquire o caráter emocional e frouxo que tão bem conhecem os profissionais dessas duas áreas.
Segundo. Defrontado com um limite seu, o sujeito IDENTIFICA-SE COM ELE. Como se pode ver, enquanto o primeiro tipo de reação com a confrontação com o limite implica a negação daquele limite, este segundo tipo implica a NEGAÇÃO DO SUJEITO, que se declara assumidamente tragado pelo limite. Em minha experiência, esta reação é menos comum do que a primeira, se bem que, como a primeira reação tende a afastar o sujeito do profissional em questão, psicanalistas e astrólogos se podem mais facilmente ver cercados de clientes que se entregam à “fatalidade” da Astrologia ou da Psicanálise.
Nas duas reações mencionadas, há algo em comum, algo que poderíamos chamar de “negação da tarefa”. Como assim? Explico-me. Na equação “sujeito + seus limites”, está implicada uma tarefa — anteriormente cheguei a falar mesmo em “missão” — qual seja, a de transposição desses limites. Eliminando-se qualquer um dos elementos dessa equação, cessa a tensão que tal tarefa provoca. O primeiro grupo nega a tarefa negando os limites; o segundo nega-a negando o que é essencial no conceito de sujeito psicológico, ou seja: sua intenção ativa de transpor esses limites.
Sei, naturalmente, que mais de um conceito de saúde e doença mentais competem no mercado internacional da Psicologia. Sou, na verdade, especialista nisso. Dediquei pelo menos uma aprofundada consideração sobre o tema em tese de Mestrado, defendida, na PUC-RJ, em 1976. Hoje, passados trinta anos de continuadas reflexões sobre a matéria, defendo desabridamente a posição de que saúde mental e liberdade de arbítrio são simplesmente uma e mesma coisa; a posição de que toda a deficiência de arbítrio implica simultânea e proporcional deficiência de saúde psicológica; a de que toda a deficiência de saúde psicológica implica proporcional e simultânea deficiência de arbítrio; e a de que todo o aprofundamento do aparato conceitual básico da nosologia psiquiátrica virá a assentar-se sobre um aprofundamento do conceito de arbítrio, em grande parte à espera de ser feito.
Mas voltemos à problemática do sujeito, de sua tarefa e de seus limites, aparelhados, agora, com a identidade entre saúde mental e liberdade de arbítrio. Nessa volta, meto-me a acrescentar um novo elemento à identidade proposta, deixando-a assim:

Saúde mental = liberdade de arbítrio = existência de sujeito

Ora, se, como sustento, a existência de um sujeito implica existência (a) dos seus limites e (b) da intenção de transpô-los, tanto a negação desses limites (reação 1, descrita acima), quanto a aceitação passiva daqueles (reação 2), acarretam a morte (relativa que seja), do sujeito e, com ela, a doença psíquica e a inexistência de arbítrio.
Em seminário, realizado pelo Grupo Mandala, no Rio de Janeiro, sobre o tema “Astrologia: destino ou livre arbítrio?”, pude constatar, entre o público, a presença da mesma esperança e do mesmo medo que vejo existir entre os que acorrem a um psicanalista.

O medo: — “Temo que você, como um especialista em doenças terminais, não tenha nenhuma terapêutica, apenas um diagnóstico: o da minha morte como sujeito e da inexistência do meu arbítrio, o da minha doença mental.”
A esperança: — “Espero que você, não apenas diagnostique um mal para o qual não há cura, espero que haja um remédio, que você o tenha e que me possa dar.”

Nós temos?

Parte II

Profissionalmente, trabalho com a Psicanálise faz quase 40 anos; estudo Astrologia, amadoristicamente, há cerca de 25. Temporariamente, deixo de lado o que me ensinou aquela; vejamos o que com essa última aprendi. Da Astrologia, como psicanalista, aprendi os limites da minha potência. Tomemos uma natividade, por exemplo, em que o fator egoísmo seja extremamente carregado. Se entendermos, como entendo, saúde mental como sinônimo de liberdade de arbítrio, a liberdade, no caso, limita-se à possibilidade de se fazer um trabalho — sobre cuja natureza logo brevemente falarei — sobre esse comportamento egoísta hipertrofiado, de modo que o sujeito não seja tragado por esse aspecto de seu mapa, sendo “cavalgado” por ele. Não existe, contudo, a possibilidade de se alterar essa natividade, no sentido de querer-se que o tema egoísmo NÃO SEJA um ponto da problemática DAQUELE SUJEITO. Essa possibilidade não existe. E isso me ensinou a Astrologia.
Pensemos, agora, em um trânsito. Suponhamos que uma conjunção nativa de Lua e Netuno, na casa I, vá receber, durante meses, a quadratura de um Saturno em trânsito. Perdoem-me alguns astrólogos menos deterministas (e, lamentavelmente, não é possível discutir isso aqui, mas a problemática do destino e do livre arbítrio não tem nada a ver com a problemática do determinismo; cf. post sobre essa problemática que logo entrará neste site), mas, hoje em dia, não vejo escapatória para o fato de que o dono de tal natividade vai ficar deprimido. Não creio haver psicanalista capaz de alterar tal fato. Qual o seu papel, então? Permitir — e, mais uma vez aqui, nos defrontamos com a questão do arbítrio — que essa depressão não “cavalgue” o sujeito, mas que ele se assenhore dela, canalizando-a para os caminhos — por exemplo, a produção de uma obra de arte capaz de expressar tristeza — que ele mesmo escolher. Em outras palavras e mais uma vez: não está em seu arbítrio ELIMINAR o fator depressivo, mas apenas gerenciá-lo, para o quê, isso sim, terá uma contribuição a dar o seu psicanalista.
Sobre essa minha afirmação — mais ousadas ainda em virtude de minha relativa desqualificação enquanto astrólogo — quanto a inevitabilidade da vivência depressiva a ser trabalhada, posso imaginar desde já a reação desconfortável de uma boa quantidade de astrólogos (isso grandemente em virtude da citada e indevida confusão entre a problemática do destino e a do determinismo). Frente a essa possível reação desfavorável, eu gostaria — em deixando, não obstante, a discussão em aberto — de colocar um aspecto em torno do qual se poderia desenvolver uma fértil colaboração entre astrólogos e profissionais da área “psi”, qual seja:
A avaliação, ou não, da correção de uma previsão astrológica, para poder ser solidez científica, depende grandemente do grau de sofisticação conceitual com que se trabalha. Explico-me. Tomemos a depressão: ela não aponta para um único sintoma — unidade última de análise diagnóstica — mas para uma síndrome, ou seja, um conjunto de sintomas que simultaneamente ocorrem. A observação leiga, via de regra, identifica depressão com tristeza. Essa é uma visão por demais grosseira para ser usada na confirmação — ou não — de hipóteses astrológicas. A síndrome da depressão inclui sintomas de áreas não afetivas, como, por exemplo:

Da área intelectual: bradipsiquismo (lentificação do pensamento);
Da área volitiva: hipobulia (diminuição do desejo de agir);
Da área somática: sintomas físicos como, por exemplo, uma gripe;
Da área motora: bradicinesia (lentificação dos movimentos).

Não cito todas as áreas, mas imagino que o que foi dito é suficiente para deixar claro que uma gripe pode ser indicadora de um estado larvar de depressão e que, portanto, um observador pouco informado pode concluir que uma previsão astrológica de depressão não se cumpriu simplesmente porque o nativo em questão não ficou triste, enquanto um observador mais sofisticado poderia verificar a correção do previsto ao incluir em sua avaliação sintomas menos “populares” de depressão como uma gripe (e considere-se que deixei de mencionar mecanismos psicológicos de defesa que podem, por exemplo, transformar um estado de depressão em um estado manifesto de euforia artificial e gratuita).
Falei em natividade e em trânsitos. Falemos algo sobre sinastria, ainda do ponto de vista da experiência de um psicanalista. É sabido que a conjunção do planeta Marte de um sujeito com o planeta Vênus de um outro, de sexo oposto, produz atração sexual. Pois bem, tenho uma experiência concreta de consultório a respeito. Minha Vênus está a 25 graus de Áries. Há alguns anos atrás, sentou-se em meu consultório, para uma entrevista inicial, uma paciente cujas características físicas não se enquadravam dentro daquelas que, normalmente, me estimulam sexualmente. Para meu espanto, porém, a paciente produziu-me, de imediato, forte atração. Só pude recorrer a uma hipótese astrológica: supus que a paciente tinha Marte no mesmo grau em que estava a minha Vênus. Tinha: seu Marte estava a 25 graus de Áries. Por que não sua Vênus no mesmo grau de meu Marte ou etc., etc. não é o que importa discutir aqui. Quero apenas considerar a contribuição de um fato do tipo do que concretamente ocorreu para a prática de um psicanalista.
Essa contribuição é dupla: primeiro, não ficar atribuindo a transferências de fixações (do analista ou de seu paciente) à infância um fato astrologicamente condicionado; segundo, quando, por exemplo, pela sinastria estiver indicado um sentimento (ou qualquer outro tipo de reação psicológica) de que ele, psicanalista, não tem consciência, desconfiar de um “ponto cego” na relação.
Em outras palavras, para solucionar o problema que supõe a tríade Psicanálise, Astrologia e Livre Arbítrio, proponho a frase de um meu paciente: — “Cara, a gente pensa que manda no nosso destino... A gente não MANDA no nosso destino, a gente SURFA no nosso destino!”
Essa frase condensa de maneira particularmente brilhante a solução mais lúcida que conheço sobre as relações entre destino e livre arbítrio: eu não posso determinar a qualidade do mar, mas posso, infinitamente, melhorar a qualidade de meu percurso sobre ele. Nesse sentido, vejo que a Astrologia está para a Psicanálise, como a Meteorologia está para a Navegação: aquelas nos apontam a qualidade do mar com que nos teremos que defrontar; essas nos oferecem instrumentos para que o naveguemos melhor.
Tentarei, no que segue, dar uma pequena idéia do que há de essencial no instrumento psicanalítico que nos permite navegar melhor no mar astrológico de nossa existência, esperando que essa pequena idéia possa congregar em torno dela algum trabalho conjunto de psicanalistas e astrólogos.
A grande descoberta da Psicanálise pode ser resumida em uma só frase, qual seja: A RESTRIÇÃO DO DISCURSO DE UM SUJEITO PROVOCA FENÔMENOS DE REPETIÇÃO, QUE SÃO O NÚCLEO DE SEUS SINTOMAS. Daí, deriva a seguinte frase, cerne da terapêutica psicanalítica: A AMPLIAÇÃO DO DISCURSO DO SUJEITO LIBERTA-O DOS FENÔMENOS DE REPETIÇÃO E, PORTANTO, DE SEUS SINTOMAS.
A expansão do discurso liberta o ser humano de suas fixações, amplia sua liberdade de escolha (não, como já vimos, de escolha da natureza do mar, mas, sim, de como navegá-lo), aumentando, consoantemente a isso, sua saúde psicológica, permitindo-lhe concretizar sua missão de tornar-se de fato humano.
Quero deixar esta frase, que entendo como o real fundamento sobre o que se pode construir com qualquer técnica que pretenda deslocar o sujeito, no contínuo da liberdade, do pólo dos que são cavalgados por suas estrelas, para o pólo dos poucos que chegam a cavalgá-las. E para marcá-la, permito-me repeti-la, reformulada: A AMPLIAÇÃO DO DISCURSO DE UM SUJEITO É O ÚNICO REAL CAMINHO PARA A AMPLIAÇÃO DE SUA LIBERDADE.
Imagino que algo dessa verdade esteja contido na suspeita de alguns astrólogos, levantado no seminário a que anteriormente me referi, de que o aprofundamento astrológico do problema do arbítrio passa por uma reavaliação do papel de Mercúrio, um planeta evidentemente associado ao problema do discurso.
E, para terminar com uma proposta, faço a de que psicanalistas e astrólogos se unam em torno à tarefa de transformar a frase psicanalítica “AMPLIE O SEU DISCURSO” e a frase astrológica “CAVALGUE A SUA ESTRELA”, em uma só frase astro-psicanalítica:

“DISCURSE A SUA ESTRELA”.

13 de jan. de 2008

SOBRE A CIENTIFICIDADE DA ASTROLOGIA I

Solicitaram minha colaboração, em debate travado em uma comunidade Orkut, sobre a cientificidade da Astrologia. Segue minha resposta.

"Se pretendemos resolver um problema, digamos, de Física, com auxílio do computador, precisamos de :

1) um input de dados quantitativa e qualitativamente satisfatórios.
2) um bom software;

O mesmo ocorre quando queremos resolver problemas com a nossa mente. Repassando os comentários dos membros dessa comunidade sobre a cientificidade ou não-cientificidade da Astrologia, vejo que nenhuma das duas condições acima está satisfatoriamente preenchida.

Quanto a (1), pouco posso ajudar, além de indicar, por exemplo, a consulta ao livro de Michel Gauquelin, The Truth about Astrology (London: Hutchinson, 1983), em que, para dar um único exemplo, a hipótese astrológica de semelhança planetária entre pais e filhos é demonstrada como estatisticamente significante em dois estudos envolvendo nada menos que 60.000 pessoas.

É, contudo, no que diz respeito a (2) que, possivelmente, tenho condições de ajudar mais.

O software que vocês estão empregando parece-me bastante ruim.

1º. Ele não distingue as etapas empírica e teórica do conhecimento científico. A Homeopatia, por exemplo, é uma ciência naquele primeiro estágio. Embora já seja empregada em clínicas, hospitais, e médicos homeopatas sejam credenciados por planos de saúde, não creio haver alguém neste planeta que acredite ter ela conseguido comprovar a veracidade dos fundamentos teóricos que propõe. Além disso, um número avassalador dos remédios empregados pela medicina são resultados da mera descoberta de correlações empíricas, sem que se saiba, de fato, o porquê de sua eficácia. Se só fossem liberados para uso um remédio, quando estivesse explicada teoricamente sua eficácia, o arsenal terapêutico e profilático da medicina ficaria seriamente empobrecido[1]. Não há fundamento racional nenhum para não se estender esse mesmo tipo de tratamento ao conhecimento astrológico, que, mais do que evidentemente, se encontra no mesmo estágio do da Homeopatia.

2º. Esse mesmo software mental de vocês parece não ter aprofundado suficientemente o que significa atribuir a uma afirmação a qualidade de científica. Há, pelo menos, dois sentidos essenciais para essa afirmação.

O primeiro fala da veracidade ou falsidade do conteúdo de uma proposição. Nesse primeiro sentido, a Astrologia, como a citada Homeopatia, só pode ser considerada científica em um nível meramente empírico[2], onde já apresenta um bom leque de hipóteses estatisticamente comprovadas.

O segundo diz respeito, não ao conteúdo da proposição, mas ao tipo de fundamento teórico que se lhe pretende atribuir. Assim, uma mesma proposição, por exemplo, “a Terra gira em torno do Sol”, é de cunho religioso se proclamada pelos adoradores de Rê (nome egípcio para o deus Sol) e de cunho científico sob a pena de Galileu. Nesse segundo sentido, uma proposição pode ser considerada de natureza científica mesmo antes de ser empiricamente confirmada ou desconfirmada, pela simples natureza do fundamento que se pretende oferecer para ela.

Some-se que crer ou não crer são estados religiosos e saber ou não saber são estados científicos. Fica muito difícil nos convencermos de que estão discutindo, de fato, sobre a cientificidade da Astrologia, pessoas que vazam seu debate nos termos de se nela acreditam ou não."

[1] Recentemente, por exemplo, descobriu-se que um determinado antidepressivo ajuda no combate ao vício de fumar. Já está sendo usado para esse fim, embora ninguém saiba, até o momento a razão desse efeito colateral.
[2] Estamos deixando de lado aqui a diferença, pouco relevante para nosso debate, entre ciências formais e ciências factuais.

12 de jan. de 2008

SOBRE A CIENTIFICIDADE DA ASTROLOGIA II

Sugeriram que eu me “ilustrasse” sobre a cientificidade da Astrologia, consultando http://www.if.ufrgs.br/ast/astrologia.htm. Encontrei ali a seguinte coletânea de inverdades e sandices:

(1) O artigo se espanta com o fato de que o mapa natal seja construído a partir da hora do NASCIMENTO e não, da CONCEPÇÃO. Tal espanto só pode ocorrer em quem não sabe que tal construção de um mapa se funda sobre o conceito de de imprinting, que deu a Konrad Lorenz um prêmio Nobel.

(2) Afirma-se ali que as casas astrologias são “regiões de 30 graus do céu em relação ao horizonte”. Qualquer iniciante nos estudos astrológicos sabe que isso não é assim.

(3) Numa tentativa desesperada de sustentar o pressuposto de que “a Astrologia não é uma ciência”, acrescentam-se outras bobagens, como a de que a Astrologia “assume que a Terra está no centro do Universo”. Só um perfeito idiota, querendo criar um monstro para depois combatê-lo, pode acreditar que a Astrologia presume isso.

(4) Quanto á “precessão do eixo de rotação da Terra”, se nosso articulista tivesse um mínimo de conhecimento sobre o que fala, saberia que a Astrologia não se ocupa com CONSTELAÇÕES, mas, sim, com as ÁREAS DO ZODÍACO que ESTAVAM ocupadas por certas constelações quando essas áreas foram nomeadas.

(5) De resto, é espantoso como ainda sobrevivem imbecis capazes de acreditar que, se NÃO HÁ TEORIAS para explicar certos fatos, tais fatos NÃO EXISTEM. Será que Fábio Rennó e o autor do artigo em pauta acham que, antes de Newton haver desenvolvido a Teoria da Gravitação, OS CORPOS NÃO CAIAM?

(6) Para completar, a colocação, posta no artigo em pauta, de que “os efeitos das posições dos planetas e da Lua em qualquer pessoa da Terra nunca foram demonstradas em qualquer estudo sistemático” é DESCARADAMENTE FALSA. Os estudos levados adiante, durante mais de trinta anos, por MICHEL GAUQUELIN (The Truth about Astrology. London; Hutschinson, 1983) provam exatamente o contrário.

10 de jan. de 2008

ASTROLOGIA E PSICOTERAPIA

Informações astrológicas podem ajudar um psicoterapeuta a entender o que está acontecendo com ele e com seu paciente? Vejamos os seguintes casos:

1) Dando supervisão, detetei uma forte presença de sensações de perda na paciente de um de meus supervisionandos. Previ alguma perturbação em casa VIII, posivelmente envolvendo Plutão e/ou o signo de Escorpião. Resultado: paciente com Plutão nativo em Virgem, na casa VIII, recebendo quadratura de Plutão em trânsito. Poderia não estar vivendo sentimentos de perda? Duvido.

2) Também de supervisão: melhoria acentuada de paciente, que sorvia as interpretações de sua terapeuta e mudava a partir delas de maneira muito mais rápida e profunda do que regularmente acontece. Confirmei ao supervisionando que seu trabalho estava sendo muito bom, mas que para mudar com aquela profundidade, com aquela velocidade, o paciente deveria estar com o Plutão em trânsito fazendo trígono com o seu Sol natal. Não deu outra.

3) Também de supervisão. Tratamento bem sucedido, mas meu comentário à supervisionanda: "Está ótimo, algo, contudo, me chamou atençâo. Você não fala tanto assim com seus outros pacientes. Esse aí deve ter o Júpiter dele em trígono com seu Mercúrio." Bingo!

4) De atendimento meu. Primeira entrevista. A paciente mal começa a falar e eu penso: "Tem Marte em 25 graus de Áries, ou muito próximo disso." Bingo, outra vez! E como pude eu saber disso? Simples: a literatura astrológica diz que, numa sinastria, quando o Marte de alguém está em conjunção com a Vênus de outra, existe atração sexual entre ambas, minha Vênus está em 25 de Áries, a paciente não tinha os atributos estéticos que normalmente me atraem sexualmente e, mal ela sentou na sala, senti fortíssima atração sexual por ela. E por que não a Vênus dela em conjunção com meu Marte? Por que meu Marte está em Câncer e quando uma mulher tem Vênus em conjunção com meu Marte, minha atração sexual por ela tem um cunho de carinho que, no caso, não se fez presente.

Será que saber essas coisas podem ajudar os terapeutas? Creio que sim.