Desde Alexis de Tocqqueville (1805-1859) e, com alguma boa vontade, Auguste Comte (1798-1857), não encontrei pensador francês de filosofia ou humanidades (enfatizo “pensador”, não “coletores de dados”, como competentemente o foram Foucault e Lévi-Strauss) que me despertasse suficiente respeito para que eu empregasse meu tempo em comentá-los. Isso inclui – a despeito da excelência de sua dramaturgia – o existencialismo ingênuo de Sartre e os sedutoras prestidigitações lingüísticas de Althusser, Barthes, Deleuze, Guattari, Kristeva e, last but surely not least, Lacan.
E assim fiquei, posto em sossego, até quando Elisabeth Badinter, em seu “Um Amor Conquistado” (1980), desmitificou, solidamente assentada em fatos históricos, a ideologia que ainda sobrevive – e contra a qual se levanta – sobre a “real” natureza da maternidade.
Em seu exemplar de 20 de julho próximo passado, a revista Veja trouxe-me de volta, em uma entrevista, o pensamento da autora, que meu respeito por ela me obriga a comentar.
Meu primeiro comentário é sucinto e relativamente óbvio, mas merece cuidadosa atenção. Não obstante sua fina análise das vicissitudes históricas do conceito de maternidade, a autora falha em desfazer de maneira suficientemente nítida os elementos, de per si autônomos, de duas tríades falsamente coladas em nosso ambiente cultural: a primeira, entre mulher, feminino e maternal; a segunda, entre homem, masculino e paternal. Não cumpre ser um gênio para concluir que essas falsas colagens podem permitir enganos que atrelam mulheres e homens a características que podem perfeitamente passear entre umas e outros, levando, por exemplo, a afirmações sobre a mulher que se aplicam apenas ao feminino, ao feminino apenas o que se aplica ao maternal, ao homem o que se aplica apenas ao masculino etc., etc., etc.. Para quem, como ela, está disposto a, como acentua o entrevistador, “despertar a ira de feministas, ecologistas e acadêmicos”, seria de bom alvitre evitar tais tropeços.
Meu segundo comentário diz respeito a uma lacuna que a formação da autora dificilmente seria capaz de preencher. Cito trechos da matéria para, a partir deles, fazer meus reparos. A certa altura da entrevista, a autora afirma:
“o conceito de maternidade tal como hoje conhecemos” [...] surgiu “apenas a partir do século XVIII, sob influência direta Jean-Jacques Rousseau” [...] “ele conseguiu convencer a sociedade francesa a valorizar mais a função materna, argumentando que isso significava para as mulheres a reconquista do papel superior que lhes foi dado pela natureza [grifo meu].”
Meu comentário se dirige não à determinação, solidamente fundamentada pela autora, da época em que se cunhou a ideologia, ainda vigorosa – e fortemente brandida pelo setor xiita do feminismo atual – da “superioridade” da função materna. Ele dirige-se ao fato de ter ela atribuído a Rousseau o papel de haver “convencido” a população francesa, indiscutível centro de difusão cultural daquela época, quanto à real existência dessa tal “superioridade”. Creio que, aqui, a autora, correta quanto à natureza do fenômeno e o período de sua ocorrência, está grandemente equivocada no que diz respeito ao modelo do qual se serve para explicá-lo.
E isso em virtude de haver farta evidência empírica de natureza astrológica - desde meados do século XVII injustamente abandonado pela comunidade acadêmica – apontando para que:
(1) Quando um astro super lento entra e passa a transitar em um determinado signo, ele imprime seu especial matiz ao tema central daquele signo;
(2) Esse efeito é pressentido subliminarmente pela humanidade como um todo;
(3) É trazido para a consciência coletiva por um ou mais indivíduos que, além de serem gênios intelectuais, possuem uma carta astrológica indicando especial sensibilidade para aquele trânsito; e que
(4) Essa especial sensibilidade é indicada, principalmente, pela posição que, na carta desses indivíduos iluminados, ocupam – data venia pelo trocadilho – os luminares, sejam, o Sol e a Lua.
Ora, sobre que matéria teoriza Badinter? Sobre exacerbada idealização da maternidade ter ocorrido a partir do século XVIII.
Ora, (1) a maternidade é a temática central do signo de Câncer e (2) Netuno, um astro super-lento*, tinge com matizes de idealização qualquer elemento que pincela**.
O que poderiam essas duas afirmações nos levar a inferir estar ocorrendo no céu, durante o século que entronizou a maternidade?
Fácil: que o planeta da idealização, Netuno, tivesse entrado no signo da maternidade, Câncer, e lá ficado por bom tempo, graças a sua lentidão.
Ocorreu isso? Basta consultar as efemérides, tabelas astronômicas – disse “astronômicas”, não disse “astrológicas”! – que nos indicam a posição exata de cada astro, no ano, mês, dia, hora, minuto, segundo etc., que quisermos bisbilhotar.
Consultaram essas tábuas? Não? Pois eu consultei e elas revelaram precisamente o que seria astrologicamente esperável:
NO SÉCULO XVIII, NETUNO ENTROU NO SIGNO DE CÂNCER,
TRANSITANDO LONGO TEMPO POR ALI.
E quanto a Rousseau?
Terá sido mesmo, como pontifica Badinter, sua “influência direta”(sic) que “conseguiu convencer a sociedade francesa”(sic) – e, convencida essa, convencer o mundo – a idealizar a maternidade?
Ou Rousseau, à parte sua genialidade, apresentava também, em sua carta astrológica, características que o tornavam particularmente apto para ser o arauto*** de um mito que a França e o mundo já estavam assaz preparados para receber?
Essa segunda hipótese ficaria particularmente reforçada se, segundo as considerações feitas anteriormente, seu Sol e/ou sua Lua estivessem, em sua carta natal, sob intensa influência do Planeta Netuno e/ou do Signo de Câncer. Vejamos.
Não tinha o mapa de Rousseau e recorri, obviamente, ao Google. Note-se o que encontrei: Netuno em conjunção (= forte influência) com a Lua, sendo essa conjunção ainda mais fortificada por uma sextilha (= significativo reforço daquela influência) com um Sol em Câncer.
Bingo! Quantos indivíduos, entre os quase 1 bilhão de pessoas presentes na Terra daquele século, além de serem gênios literários, teriam tal aspecto astrológico e habitariam um centro difusor de cultura como a França de então? Mais um detalhe, que facilitou certamente a idealização da mãe por Rousseau, a mãe desse grande e romântico francês faleceu quando lhe deu à luz... É, sem dúvida, mais fácil fantasiar a excelência de uma mãe ausente do que a de uma que não apenas nos abriga, mas também nos obriga...
O mundo acadêmico terá seu potencial preditivo significativamente empobrecido, enquanto insistir em, ao invés de submeter seriamente à prova as hipóteses empíricas da Astrologia, desconsiderá-las sumariamente, deixando-as ao sabor dos palpites canhestros de apedeutas e charlatões.
À guisa de sobremesa, para os mais entendidos:
1) Futurologia:
A crise econômico-financeira dos EUA, independentemente de algum sazonal recuo, deve seguir-se aprofundando, até chegar a seu clímax, no ano de 2014. Plutão em Capricórnio chegará, nesse ano, a uma oposição exata com o Sol em Câncer, situado na casa II, das posses, desse país. É também possível que, nesse ano, ele perca sua hegemonia econômica (possivelmente para a China, não por razões astrológicas, mas pelo que se vê por aí...). Também é possível que a racha tectônica existente sob São Francisco venha a sofrer abalos (o Sol do país, além de estar na casa II, rege a casa IV, associada aos alicerces de um indivíduo, de uma empresa, de um país etc.).
2) Presentologia:
Plutão, desde o fim de 2008, adentrou Câncer, o que tende (contrariamente ao que fez Netuno ao entrar nesse signo) a trazer à tona tudo o que há de podre sob a fachada idealizada do materno. Ocorrendo isso, o trabalho de Badinter ficará na berlinda e será respeitado.
3) Passadologia:
No século XIX, Plutão, rei do Hades (inferno grego e, assim, de tudo que é subterrâneo, invisível, obscuro, marginalizado etc.) entrou no signo de Touro, um signo intimamente associado a tudo que é palpável, visível, audível, cheiroso, degustável e palpável. Ótimo para o nascimento da Psicanálise, não?
Pois bem, Freud, seu criador, tinha, alimentando sua genialidade e sua privilegiada alocação cultural, um mapa astrológico com o Sol (= consciência) em Touro (= o que pode ser captado por nossos sentidos e assim, por derivação, nosso comportamento) acicatado por sua conjunção com um Plutão (= o inferido e assim, por derivação, o Inconsciente). E não com um Plutão qualquer, mas com um Plutão especialmente poderoso, pois Escorpião, o signo por esse astro comandado, estava nascendo no momento em que Freud nasceu. Não é à toa que esse neurologista vienense inaugura oficialmente a Psicanálise, colocando em latim, no frontispício de sua mais conhecida obra, a “Interpretação dos Sonhos”, a famosa frase de Virgílio:
“Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo.”
Entenda-se:
“Se não posso dobrar o Céu, moverei o Inferno”!
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*Leva cerca de 170 anos para percorrer o Zodíaco, enquanto a Lua leva 28 dias para isso, e os ciclos zodiacais de Mercúrio e Vênus, por exemplo, nem sequer a 1 ano chegam.
**Uma arguta colega psicanalista dizia que ser mãe não é, como reza o dito, “padecer num paraíso”, mas, bem ao contrário, “ser feliz num inferno”...
***Especialmente, frisa Badinter, com a publicação, em 1762, de seu Emile.