Solicitaram minha colaboração, em debate travado em uma comunidade Orkut, sobre a cientificidade da Astrologia. Segue minha resposta.
"Se pretendemos resolver um problema, digamos, de Física, com auxílio do computador, precisamos de :
1) um input de dados quantitativa e qualitativamente satisfatórios.
2) um bom software;
O mesmo ocorre quando queremos resolver problemas com a nossa mente. Repassando os comentários dos membros dessa comunidade sobre a cientificidade ou não-cientificidade da Astrologia, vejo que nenhuma das duas condições acima está satisfatoriamente preenchida.
Quanto a (1), pouco posso ajudar, além de indicar, por exemplo, a consulta ao livro de Michel Gauquelin, The Truth about Astrology (London: Hutchinson, 1983), em que, para dar um único exemplo, a hipótese astrológica de semelhança planetária entre pais e filhos é demonstrada como estatisticamente significante em dois estudos envolvendo nada menos que 60.000 pessoas.
É, contudo, no que diz respeito a (2) que, possivelmente, tenho condições de ajudar mais.
O software que vocês estão empregando parece-me bastante ruim.
1º. Ele não distingue as etapas empírica e teórica do conhecimento científico. A Homeopatia, por exemplo, é uma ciência naquele primeiro estágio. Embora já seja empregada em clínicas, hospitais, e médicos homeopatas sejam credenciados por planos de saúde, não creio haver alguém neste planeta que acredite ter ela conseguido comprovar a veracidade dos fundamentos teóricos que propõe. Além disso, um número avassalador dos remédios empregados pela medicina são resultados da mera descoberta de correlações empíricas, sem que se saiba, de fato, o porquê de sua eficácia. Se só fossem liberados para uso um remédio, quando estivesse explicada teoricamente sua eficácia, o arsenal terapêutico e profilático da medicina ficaria seriamente empobrecido[1]. Não há fundamento racional nenhum para não se estender esse mesmo tipo de tratamento ao conhecimento astrológico, que, mais do que evidentemente, se encontra no mesmo estágio do da Homeopatia.
2º. Esse mesmo software mental de vocês parece não ter aprofundado suficientemente o que significa atribuir a uma afirmação a qualidade de científica. Há, pelo menos, dois sentidos essenciais para essa afirmação.
O primeiro fala da veracidade ou falsidade do conteúdo de uma proposição. Nesse primeiro sentido, a Astrologia, como a citada Homeopatia, só pode ser considerada científica em um nível meramente empírico[2], onde já apresenta um bom leque de hipóteses estatisticamente comprovadas.
O segundo diz respeito, não ao conteúdo da proposição, mas ao tipo de fundamento teórico que se lhe pretende atribuir. Assim, uma mesma proposição, por exemplo, “a Terra gira em torno do Sol”, é de cunho religioso se proclamada pelos adoradores de Rê (nome egípcio para o deus Sol) e de cunho científico sob a pena de Galileu. Nesse segundo sentido, uma proposição pode ser considerada de natureza científica mesmo antes de ser empiricamente confirmada ou desconfirmada, pela simples natureza do fundamento que se pretende oferecer para ela.
Some-se que crer ou não crer são estados religiosos e saber ou não saber são estados científicos. Fica muito difícil nos convencermos de que estão discutindo, de fato, sobre a cientificidade da Astrologia, pessoas que vazam seu debate nos termos de se nela acreditam ou não."
[1] Recentemente, por exemplo, descobriu-se que um determinado antidepressivo ajuda no combate ao vício de fumar. Já está sendo usado para esse fim, embora ninguém saiba, até o momento a razão desse efeito colateral.
[2] Estamos deixando de lado aqui a diferença, pouco relevante para nosso debate, entre ciências formais e ciências factuais.
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